Hoje foi notícia que um casal de portugueses foi baleado no Rio de Janeiro, o que contribui para o mito nacional português de que o Brasil é povoado por bandidos e prostitutas. Pelo menos é esta a leitura que eu faço de diversos comentários que se podem ler a propósito da referida notícia publicada hoje pelo DN. Aliás, é também de notar que têm surgido na mídia e na internet denúncias de atos de racismo praticados por portugueses contra brasileiros, sobressaindo neste domínio as denúncias de descriminação contra brasileiros na Universidade de Coimbra, isto apesar de haver divergências entre a resposta institucional da referida Universidade e alguns dos testemunhos prestados por diversos alunos. A este propósito, O Globo noticia que "[...] imagens, que começaram a circular no final do ano passado, mostram cartazes com frases como «os brasileiros e os pretos deviam todos morrer», encontrada originalmente numa carteira da Faculdade de Letras, e «as alunas brasileiras precisam cuidar o comportamento, caso contrário, reforçarão o estereótipo de prostitutas, putas e fáceis», que teria sido dita por uma professora." (in O Globo, 10 e 11.01.2014).
De facto, constata-se que um dos mitos havidos em Portugal é que o Brasil é um país muito violento. Quando eu elevo à categoria de mito a violência nas cidades brasileiras não é para negar que não exista qualquer tipo de violência nas mesmas; é simplesmente para se compreender que:
De facto, constata-se que um dos mitos havidos em Portugal é que o Brasil é um país muito violento. Quando eu elevo à categoria de mito a violência nas cidades brasileiras não é para negar que não exista qualquer tipo de violência nas mesmas; é simplesmente para se compreender que:
- O Brasil não é constituído só pelas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro. Cidades brasileiras há onde o crime mais relevante é o roubo da máquina de cortar relva das Irmãs de São Vicente de Paula, ou o puro roubo por esticão, algo que eu já fui alvo por diversas vezes em Portugal, uma à porta de casa e com recurso a arma branca.
- Que há um enorme contributo para a construção deste mito na percepção distorcida que se faz da realidade e que é fundamentalmente alimentada por uma diferente atitude onde uns escondem (Portugal) e outros escancaram (Brasil) a realidade, distorcendo desta forma, e de maneira significativa, a percepção que se faz da mesma.
Um dos outros mitos que me ocorre é o de se referirem ao Brasil como um país do terceiro mundo -- expressão usada aqui como sinônimo de país atrasado do ponto de vista econômico e social --, considerando que Portugal sempre foi um país do dito primeiro mundo. Quanto a esta questão, lembro-me de algo passado na minha adolescência e de que muitos dos mais jovens não terão a mínima consciência: numa aula de geografia do antigo ensino secundário unificado (atual terceiro ciclo do ensino básico), provavelmente por volta de 1980 se a memória não me falha, um professor meu de geografia terá classificado Portugal como um país do terceiro mundo, pois o mesmo possuía indicadores econômicos e sociais comparáveis a muitos destes países, não estando sequer integrado plenamente na Europa política, econômica e social de então (à época Portugal estava somente integrado na EFTA, da qual era membro fundador). Anos mais tarde, precisamente em 1986, Portugal aderiu à CEE, passando-se então a dizer que «tínhamos entrado na Europa». Sempre achei um perfeito disparate tal afirmação (afinal, Portugal não se situou sempre no continente Europeu!?), sendo que ao mesmo tempo, como de um dia para o outro, deixei de ouvir referências a Portugal ser um país com características de terceiro mundo, passando-se a situar este ao nível dos restantes países europeus. Note-se que o termo de «países do terceiro mundo» surgiu para referenciar, durante a guerra fria, os países não alinhados à OTAN e ao Pacto de Varsóvia, pelo que Portugal não aparecia formalmente como um país do terceiro mundo (aliás, lembro-me que por essa Europa fora muitos pensavam que Portugal era uma província espanhola e não um país soberano!). Agora, quando o termo de «países de terceiro mundo» passou a ser utilizado para designar países com atraso econômico e social -- que coincidia em muitos casos com os referidos países não alinhados --, então verificamos que Portugal se encontrava à época com indicadores econômicos e sociais ao nível de muitos destes países, sendo aí perfeitamente justificada a memória que eu tenho do que esse meu professor de geografia terá referido há mais de trinta anos atrás.
Quanto à violência no Brasil, posso ainda referir, em sentido contrário ao mito acima exposto, que:
- Tendo família no Brasil (não em São Paulo, nem no Rio) e em Portugal, fui mais vezes assaltado em Lisboa e arredores do que qualquer um dos meus familiares residentes no Brasil.
- Ouvindo relatos de quem tem a seu cargo funções ligadas à segurança pública, tive conhecimento de situações de violência grave em Portugal que não se houvem falar nos mídia portugueses. Aqui a regra é o «esconder debaixo do tapete», quando no Brasil assisto a um escancarar de tudo, mesmo a níveis inimagináveis em terras lusas. Penso, por exemplo, no vídeo onde Charles Smith, a propósito do Freeport, refere que José Sócrates é corrupto: em Portugal, este vídeo andou de forma clandestina, nunca tendo sido exibido de maneira minimamente similar ao que a Globo nos habituou em casos como este. Aliás, a única jornalista que em Portugal tentou imitar um estilo próximo daquilo que se vê nos mídia brasileiros (penso em figuras como o Datena), foi afastada da TVI, tendo contra o seu estilo jornalístico a opinião pública e publicada portuguesa, ao passo que Datena é líder de audiências no Brasil. Penso mesmo em outros casos de corrupção como o «mensalão», onde existem empresas portuguesas envolvidas, mas que enquanto os mídia brasileiros se referem abertamente à participação das mesmas nos referidos esquemas, em Portugal reina um silêncio sobre o assunto, havendo poucas referências ao caso e nenhuma delas com o impacto social que se pode observar no Brasil (neste domínio, tive a oportunidade de acompanhar de perto o referido caso no Brasil, com a cobertura jornalística da Globo, bem como de outros mídia brasileiros, nomeadamente da revista VEJA). Aliás, se a relação já citada na imprensa portuguesa entre Cavaco Silva e a PIDE se passasse no Brasil, é provável que o mesmo já tivesse sido alvo de um processo de «Impeachment», ou nem sequer tivesse conseguido ser reeleito.
- Os números de homicídios por 100.000 habitantes muitas vezes utilizados como medida de comparação do grau de violência existente entre os diversos países, para além de redutores -- entre outros aspetos, tais números escondem as eventuais diferenças que podem existir dentro de um mesmo território nacional, o que é especialmente relevante em países com a dimensão territorial do Brasil --, torna-se necessário referir que "a confiabilidade dos dados subjacentes às taxas nacionais de assassinatos pode variar [uma vez que] a definição legal de «homicídio doloso» (com intenção de matar) difere entre os países [...], [podendo] ou não incluir assalto, infanticídio e suicídio assistido ou eutanásia." Desta forma, a comparabilidade de tais dados se torna bastante limitada, nomeadamente quando os mesmos são apresentados de forma agregada, como é o caso de muitos «rankings» que se podem ver publicados sobre o assunto.
- Não querendo ser de todo exaustivo sobre o assunto, não nos podemos também esquecer que neste domínio há questões culturais e históricas que podem fazer alguma diferença, nomeadamente ao nível da percepção. Desde uma cultura em torno das armas de fogo -- como se pode ver nos Estados Unidos --, até a uma atitude de maior exposição ou ocultamento da realidade. Por exemplo, lembro-me de ouvir de fonte muito credível, ainda antes do conhecimento público do processo Casa Pia, de que um certo político de direita tinha sido apanhado numa rusga policial na prostituição infantil no Parque Eduardo VII, e só ver uma referência clara e objetiva a este assunto num artigo publicado na revista francesa Le Point em 2003, quando em Portugal se andava «caçando gambozinos», como se houvesse um partido dos pedófilos, neste caso o PS que estava na oposição (os dois nomes mais relevantes referidos pelo citado artigo publicado na Le Point eram do PSD e do PP, e nenhum deles do PS).
Pelo exposto, penso ser altura de se deixarem os preconceitos e os mitos de lado, os quais, antes do mais, escondem uma realidade complexa, mas que em caso algum é compatível com os mesmos.