Hoje lendo uma entrevista, num anuário para 2010, referente à música clássica no Brasil, me veio à consciência uma diferença cultural profunda entre o Brasil e Portugal que, apesar de já ser do meu conhecimento, fez nesse mesmo momento uma ressonância na minha mente. Numa entrevista realizada com Sérgio Figueiredo, presidente de honra da Associação Brasileira de Educação Musical [AAVV (2010). Anuário 2010: O guia de negócios da música clássica no Brasil. Rio de Janeiro: VivaMúsica! Edições, pp. 32-36.], o entrevistado diz o seguinte: "Licenciaturas são consideradas cursos de segunda categoria", a que acrescenta, "mas há algumas excelentes.". De facto, enquanto em Portugal houve historicamente, desde a fundação dos Institutos Politécnicos em 1979, uma luta pela transformação dos cursos de Bacharelato ministrados nestas escolas em Licenciaturas, as quais foram sempre vistas em Portugal como possuindo um estatuto social mais elevado, no Brasil muitos cursos são ainda hoje Bacharelatos, dando os mesmos acesso direto a mestrado sem haver a necessidade de se ser Licenciado. Na realidade, o facto de se possuir uma titulação de Bacharel ou de Licenciado depende da área de formação acadêmica e não do facto de o segundo ser uma titulação de primeira e o primeiro uma titulação de segunda. Esta concepção é exatamente o oposto do que acontece em Portugal, onde durante as décadas de 1980 e de 1990, os Institutos Politécnicos lutaram para dar os mesmos graus acadêmicos que as Universidades, o que acabou por levar a que de todos os cursos de graduação, com a implementação do Processo de Bolonha, deem a titulação de Licenciado, transformando assim os antigos Bacharelatos nas atuais Licenciaturas pós-Bolonha. É Também de notar a associação que acabou por surgir em Portugal, nestas décadas de 1980 e 1990, do grau de Bacharel à titulação de um curso de três anos (seis períodos) e do grau de Licenciado à titulação de um curso de quatro ou cinco anos (oito a dez períodos), o que não é o que acontece no Brasil, onde uma graduação que leve à titulação de Bacharel pode ter a mesma duração do que uma graduação que leve à titulação de Licenciado.
Eu vivi este processo em Portugal, primeiro, no início da década de 1980 no Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Lisboa -- de que concluí o primeiro ano do curso de contabilidade e administração --, e já na transição para a década de 1990, na Escola Superior de Música de Lisboa, onde concluí o Bacharelato em Composição no ano de 1992. De facto, antes de poder cursar o Mestrado em Ciências da Educação, na especialidade de História da Educação, na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, tive a necessidade de concluir um DESE (Licenciatura) em Direção Pedagógica e Administração Escolar na Escola Superior de Educação de Almada do Instituto Piaget. É verdade de esta formação me deu uma perspectiva suis generis, com uma visão diferenciada, do cruzamento entre arte e educação, mas a mesma não deixa de encerrar em si uma visão mais formal e fechada de um enquadramento de formações de primeiro e segundo ciclo do ensino superior.
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