Como o título deste post sugere, o português gosta de reinventar o que já foi previamente inventado, como irei aqui procurar demonstrar num caso bem concreto. Provavelmente muitos ainda não sabem, mas a razão por detrás do abaixamento de preços nas chamadas telefônicas se deve à passagem de um sistema telefônico baseado na comutação de circuitos para um sistema telefônico baseado na comutação de pacotes. Este é o caso do VoIP, onde um dos protocolos mais usados é o SIP que veio substituir, em termos da sua popularidade, o protocolo H.323 ao nível da implementação de redes telefônicas. Nas centrais telefônicas, numa rede baseada na comutação de pacotes, usa-se o Asterisk (programa Open Source correndo sobre Linux) e o OpenSIPS, também Open Source, os quais emulam o comportamento de um PABX sobre TCP/IP. É usando esta tecnologia que muitos dos operadores telefônicos de referência oferecem hoje o serviço telefônico em ofertas triple play.
Este é o caso da Portugal Telecom que, na sua oferta Sapo VoIP, usa o protocolo SIP. Mas, como iremos ver, as configurações deste serviço são muito pouco ortodoxas, não se compreendendo, do ponto de vista tecnológico, o porquê do uso de uma configuração tão «estranha», quando o padrão internacional é outro. Por exemplo, num serviço muito popular, como o Voipbuster, as configurações do serviço são as seguintes:
- Servidor proxy: sip.voipbuster.com:5060
- Servidor proxy de saída (outbound): deixar em branco
- Servidor stun (opcional): stun.voipbuster.com
Apesar do servidor proxy de saída (no inglês, outbound proxy) ser uma das técnicas utilizadas para ultrapassar os problemas criados pelo uso de NAT nos roteadores IPv4, é bem mais corrente o recurso a um servidor de stun (no inglês, stun server). Isto até porque, usando um servidor proxy de saída, deixa de ser possível a ligação de dois clientes SIP em P2P.
Agora olhemos para as configurações do serviço VoIP da Sapo. Para além da configuração do usuário e da senha, algo comum a todos os provedores de VoIP e que permite individualizar cada um dos clientes -- o que acontece também no serviço oferecido pela Voipbuster --, o serviço VoIP da Sapo conseguiu «inovar» ao utilizar as seguintes configurações:
- Servidor proxy: voip.sapo.pt:5060
- Servidor proxy de saída (outbound): proxy.voip.sapo.pt:5070
- Servidor stun (opcional): não oferecido mas pode-se configurar qualquer um
Como se pode ver, existe não só a utilização de endereços diferentes para o servidor de proxy (registo) e para o servidor de proxy de saída, como ambos usam uma porta UDP diferente. Também não é possível utilizar o servidor de proxy (registo) sem o servidor de proxy de saída, ao contrário do que é sempre regra em outros serviços similares, uma vez que o servidor de proxy de saída se necessita para contornar as limitações impostas pela NAT no caso de não se usar um servidor de stun. Na realidade, tal configuração constitui um caso único em todos os serviços de VoIP sobre o protocolo SIP que eu conheço, constituindo também uma arquitetura que, do ponto de vista técnico, é desnecessariamente complicada e inútil, limitando-se a introduzir um maior grau de potenciais incompatibilidades ao nível da configuração do referido serviço. De facto, serviços que oferecem valor agregado ao VoIP, como o Voxalot e o PBXes.org, não funcionam, ou tendem a não funcionar, com este tipo de configuração tão pouco ortodoxa, que complica desnecessariamente, e sem sentido, algo que pode ser bem mais simples e bem menos problemático ao nível da sua configuração. Na realidade, para se conseguir usar o serviço VoIP da Portugal Telecom é preciso poder enviar a seguinte string de registo:
Porquê tanta complicação? Essa é uma boa pergunta cuja resposta não pode deixar de ser o reinventar da roda. De facto, tal configuração em nada inova do ponto de vista técnico, limitando-se a mesma a introduzir potenciais incompatibilidades de configuração ao nível do serviço oferecido. Não há qualquer vantagem tecnológica retirada desta complicação, quer ao nível de segurança, quer ao nível da limitação do uso do serviço de acordo com as regras ditadas pela ANACOM: é que os números de telefone começados por dois só podem, de acordo com a referida regulamentação, ser usados na morada de instalação do serviço. Mas esse nem é o caso, pois se consegue configurar o referido número em qualquer lugar do mundo (já testado!), desde que com hardware ou software que suportem tais configurações tão pouco ortodoxas. É mesmo caso para dizer, português gosta mesmo de complicar...
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