segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Pensamentos iniciais...

Inicio este blog como um espaço de reflexão pessoal baseado na minha experiência de vida. É verdade que numa sociedade mediatizada como a nossa, há uma tendência de se querer sair do anonimato através de uma exposição social efetuada com recurso às tecnologias da informação e comunicação, bem como à participação em programas televisivos cujos formatos tão rápido promovem a ascensão como a demonização do indivíduo, numa experiência existencial ilusória que procura colmatar as incertezas da afirmação pessoal de cada um, gerando uns minutos de fama e de grande exposição mediática. Esse não é o meu objetivo, pois me considero uma pessoa segura de mim mesmo, com uma grande lucidez da realidade, por vezes até excessiva. Na verdade, pretendo deste espaço a partilha de ideias e conhecimentos adquiridos, bem como de reflexões mais pessoais.

Nestes últimos anos tenho tido o privilégio de viver entre duas culturas: a portuguesa e a brasileira. Isso me tem permitido abrir horizontes no confronto entre estas duas realidades que, apesar de tão próximas, estão simultaneamente muito distantes entre si. E esse privilégio tem me permitido ter um outro olhar sobre estes dois mundos, observando comportamentos e compreendendo atitudes que, vistas com algum distanciamento, me levam a uma espécie de psicanálise cultural centrada na análise de comportamentos culturalmente diferenciados. Contudo, a incompreensão existente do outro nos leva a leituras por vezes erradas, quer no português que olha o Brasil como um país de marginais, ou o brasileiro que olha Portugal -- e, no seu todo, a Europa -- como o primeiro mundo.

Nenhuma dessas visões poderia estar mais errada, como nenhuma das mesmas corresponde de facto à realidade. Por exemplo, é comum nos mídia brasileiros a ideia de que no Brasil se paga muito imposto, ou que na Europa e nos Estados Unidos existem muito melhores serviços públicos. Contudo, tais visões, que sublimam uma noção de inferioridade, não correspondem à verdade. Não só na Europa a taxa de fiscalidade é bem mais elevada do que no Brasil, com taxas de imposto de renda que chegam a ultrapassar os cinquenta porcento, como os serviços públicos no Brasil de hoje, quando vistos na sua generalidade, não ficam nada atrás da realidade europeia, pelo menos nunca na forma tão gritante como alguns mídia brasileiros procuram sugerir. Sintomáticos desta realidade são as enormes listas de espera existentes no SNS (Serviço Nacional de Saúde) português -- as quais chegam a ultrapassar as do SUS (Serviço Único de Saúde) brasileiro --, ou então a comparação que se pode fazer entre o poder judiciário destes dois países, onde, por exemplo, um processo de despejo, num tribunal português leva no mínimo três a quatro anos para chegar ao seu termo, ao passo que num qualquer tribunal brasileiro se resolve processo idêntico em três ou quatro meses.

Antes de tudo, estas visões relativas à noção de si e do outro, mais não refletem que uma dimensão das diferenças culturais possíveis de encontrar entre estes dois países, em que o europeu se vê a si mesmo como o esclavagista e o brasileiro como o escravo. Esta diferença de posições realça mitos, onde por exemplo o Rio de Janeiro ou São Paulo são de certa forma vistos como antros de violência e de crime, quando na realidade europeia se encontra uma maior violência urbana e criminal, praticada não por estrangeiros, mas por europeus de pleno direito, por vezes mais intensa e grave do que aquela que se pode ver em tais cidades brasileiras. Este preconceito xenófobo contra o estrangeiro que hoje se vê com alguma acuidade na Europa de início deste Século XXI, já não é nova, tendo como antecedente mais recente o antissemitismo que levou ao holocausto nazi. É preciso, ao invés deste ódio desinformado, procurar a compreensão mútua, percebendo que, antes de tudo, todos nós somos Humanos e vivemos neste mesmo planeta, o terceiro do nosso sistema solar. Que, apesar de todas as nossas diferenças, somos muito mais iguais do que por vezes imaginamos.

É neste contexto, e como símbolo de admiração e de respeito pelo outro, que coloco aqui, para terminar, um quadro sobre óleo, datado de 1926, retratando a Baia da Guanabara, na cidade do Rio de Janeiro, em finais do Século XIX. Este quadro encontra-se no Palácio de Belém, residência oficial da Presidência da República portuguesa.



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